Vou te dizer que eu gosto de analisar como a nossa língua portuguesa é amassada e entortada pra se encaixar nos pequenos espaços vagos no cérebro de cada "cultura". E de como alguns irônicos paralelos se traçam quando a gente passa a comparar.
Por exemplo: a gramática falada hoje nas empresas (uma salva de palmas pra caravana do telemarketing) tem como característica principal o gerundismo, que é aquele tal de dizer que "estará fazendo", "estará efetuando", tralalá. Nenhuma novidade e, corrija-me se equivocado eu estiver, nada de errado também (um tanto inadequado, só).
Mas eu gostaria de lançar luz sobre a escrita, que é bastante menosprezada pelo humor sem graça corporativo. Se há na língua falada o gerundismo, na escrita há o infinitivismo.
Repara: é tudo no infinitivo. Até o banner desse blog na minha outra casa é assim (se você não reparou o gracejo, sinto muito, você foi engolido pelo sistema). Mas não só isso: as frases são simplificadas ao máximo, até o esqueleto. Veja nos post-its grudados no seu escritório: é "Silvio, ligar Joana" pra cá, "Rosana, fazer relatório" pra lá. Alguns bravos defensores dirão que é falta de tempo, mó correria e etc. Mas eu digo o que é: é atrofia cerebral.
Pode olhar em todas as histórias que mostram índios que não tem muito domínio do português: eles sempre falam tipo "mim gostar amorzinho" e coisas assim. Igual a você e seu papelzinho amarelo ridículo. Mas sabe a diferença? Os índios tem seu próprio idioma, e tão no português de freelance. Mas nós só temos o português. A permanecer essa involução, em breve só nos restarão meia dúzia de frases copiadas de seriados em uma língua estrangeira.
O trabalho emburrece o homem, é verdade. E não há alternativa para evitar que em breve estejamos nos comunicando por grunhidos metálicos. Na verdade há, mas isso envolveria todo mundo tomar vergonha na cara e parar de escrever como retardado. Como proatividade empresarial é uma parada que só funciona quando é pra impressionar chefe, dá pra afirmar que estamos mesmo numa locomotiva sem freio rumo ao abismo das vogais sem sentido. Só vamos nos dar as mãos e torcer pra morrer de alguma outra coisa antes disso.
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Ao toilete
Mercado de trabalho é quase tudo sobre aparência. Vestir-se bem, portar-se bem, falar bem, todos atributos de bons profissionais. Mas não é possível manter intacta essa bonequinha de cera porque, rá!, a natureza ainda é prioridade.
E é na hora que ela chama e a pessoa precisa fazer uma visita ao banheiro que a gente descobre quem é quem. Já vi gente que acha que é chefe passar vinte minutos lá e sair toda descabelada, já vi gente que é chefe de verdade matar ratos lá dentro (só isso explica o cheiro).
Infelizmente, isso é coisa que afeta todo mundo. O sol nasce pra todos, a privada também. Porém, de algum modo que a ciência não explica, o vaso do trabalho costuma ser mais traiçoeiro que o normal. A descarga, em primeiro lugar, nunca é potente o bastante: a água vai, mas não leva todo mundo. O assento também é esquisito - pode reparar, a privada é o único objeto da casa que molda a sua anatomia, e sob essa ótica, complicado esperar que sua bunda se adapte tranquilamente a qualquer uma. Tem também um probleminha chato que rola com os homens: você chega, mija, e quando vê, tem um pentelho na borda. Aí você não sabe se ele é seu ou de alguém que usou antes, então fica com medo de por a mão, e no fim do dia a privada tá parecendo uma peruca.
Fora o seu próprio desconforto ao não conseguir controlar essas coisas - tipo estourar o deadline porque te deu uma vontade louca de cagar a 10 minutos de entregar a parada -, tem também o lance da sua imagem perante os colegas. O banheiro te deixa vulnerável, não importa quem você é e que cargo ocupa na empresa. Em geral dá pra fazer tudo com um certa discrição, mas às vezes uma mijadinha no chão, um cheirão horroroso ou uma esquecida de lavar a mão pode acabar com uma reputação - talvez até uma carreira!
Aparentemente, nesse assunto as histórias são mais conhecidas que os autores - tente puxar esse papo com o pessoal da sua empresa e vai ouvir centenas de casos, mas poucos nomes. Isso é bom, muito bom. Mas, mesmo sendo um problema com baixa taxa de mortalidade, ainda é importante manter a guarda levantada e os olhos abertos. A vida corporativa não é uma "bosta" por acaso.
E é na hora que ela chama e a pessoa precisa fazer uma visita ao banheiro que a gente descobre quem é quem. Já vi gente que acha que é chefe passar vinte minutos lá e sair toda descabelada, já vi gente que é chefe de verdade matar ratos lá dentro (só isso explica o cheiro).
Infelizmente, isso é coisa que afeta todo mundo. O sol nasce pra todos, a privada também. Porém, de algum modo que a ciência não explica, o vaso do trabalho costuma ser mais traiçoeiro que o normal. A descarga, em primeiro lugar, nunca é potente o bastante: a água vai, mas não leva todo mundo. O assento também é esquisito - pode reparar, a privada é o único objeto da casa que molda a sua anatomia, e sob essa ótica, complicado esperar que sua bunda se adapte tranquilamente a qualquer uma. Tem também um probleminha chato que rola com os homens: você chega, mija, e quando vê, tem um pentelho na borda. Aí você não sabe se ele é seu ou de alguém que usou antes, então fica com medo de por a mão, e no fim do dia a privada tá parecendo uma peruca.
Fora o seu próprio desconforto ao não conseguir controlar essas coisas - tipo estourar o deadline porque te deu uma vontade louca de cagar a 10 minutos de entregar a parada -, tem também o lance da sua imagem perante os colegas. O banheiro te deixa vulnerável, não importa quem você é e que cargo ocupa na empresa. Em geral dá pra fazer tudo com um certa discrição, mas às vezes uma mijadinha no chão, um cheirão horroroso ou uma esquecida de lavar a mão pode acabar com uma reputação - talvez até uma carreira!
Aparentemente, nesse assunto as histórias são mais conhecidas que os autores - tente puxar esse papo com o pessoal da sua empresa e vai ouvir centenas de casos, mas poucos nomes. Isso é bom, muito bom. Mas, mesmo sendo um problema com baixa taxa de mortalidade, ainda é importante manter a guarda levantada e os olhos abertos. A vida corporativa não é uma "bosta" por acaso.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
A culpa é minha, eu ponho em quem eu quiser
Apesar do crescente número de pessoas que trabalham remotamente ou por conta, não dá pra negar que o trabalho é algo primordialmente coletivo. Quase tudo depende de uma looonga cadeia de pessoas, procedimentos, cafés e formulários em três vias. E, já que somos humanos, é natural que em alguma hora no meio desse percurso aconteça alguma cagada. Oh, e agora?
Agora é a hora do tiroteio, mermão. Pode haver centenas de pessoas aglomeradas num pequeno espaço, mas é só alguém gritar que houve um erro e procurar o responsável que magicamente vai se abrir um corredor no meio, com todo mundo rapidamente tirando seus respectivos da reta (há quem diga que Moisés atravessou o Mar Vermelho justamente fazendo com que cada gota d'água não quisesse admitir a própria culpa pelo que quer que seja - nunca saberemos). Se você é um experimentado frequentador do planeta corporativo deve saber que um dos itens básicos de sobrevivência nessa Pandora de terno e gravata é justamente saber se esquivar da culpa. "Ah, eu deletei tudo, depois criei de novo de um jeito que eu achei bonito e legal e mandei pro cliente sem a aprovação de ninguém, mas porque eu fui corrigir um erro de digitação do estagiário e deu pau em tudo. Não é minha culpa".
O estagiário, separemos um parágrafo pra ele, é um personagem importante dessa história. Há uma lei não escrita, você deve saber, que diz que o primeiro suspeito de cagada é sempre esse pobre estudante cheio de espinhas. Repara: a cada vez que algum erro abominável vem ao conhecimento popular (tem um exemplo recente), brotam comentários maldosos do tipo "ih, um estagiário vai perder o emprego". É porque o estagiário é burro ou incompetente? Não, é porque quem pode mais, chora menos.
O mercado de trabalho é bastante competitivo, e mesmo que você chame todos os seus colegas de amigos (erro hipócrita básico), nunca vai querer admitir que é menos capaz que eles. Há quem diga que é bonito assumir a culpa, que é coisa de gente com caráter e tal, mas isso é bobagem: aceitar que você errou não te faz melhor, só faz com que os outros (os seus "amigos") parem de te acusar pelas costas. Nada contra, é até legal arrancar essa raspa de diversão maquiavélica alheia, mas certamente não vai te ajudar na carreira.
Para continuar ascendendo, a melhor opção ainda é fingir que não é com você e espantar a culpa pra qualquer lado o mais rápido possível. Ou vocês acham que o nome do Coelho Ricochete não tem nada a ver com o fato de ele ter chegado a xerife? Por favor.
Agora é a hora do tiroteio, mermão. Pode haver centenas de pessoas aglomeradas num pequeno espaço, mas é só alguém gritar que houve um erro e procurar o responsável que magicamente vai se abrir um corredor no meio, com todo mundo rapidamente tirando seus respectivos da reta (há quem diga que Moisés atravessou o Mar Vermelho justamente fazendo com que cada gota d'água não quisesse admitir a própria culpa pelo que quer que seja - nunca saberemos). Se você é um experimentado frequentador do planeta corporativo deve saber que um dos itens básicos de sobrevivência nessa Pandora de terno e gravata é justamente saber se esquivar da culpa. "Ah, eu deletei tudo, depois criei de novo de um jeito que eu achei bonito e legal e mandei pro cliente sem a aprovação de ninguém, mas porque eu fui corrigir um erro de digitação do estagiário e deu pau em tudo. Não é minha culpa".
O estagiário, separemos um parágrafo pra ele, é um personagem importante dessa história. Há uma lei não escrita, você deve saber, que diz que o primeiro suspeito de cagada é sempre esse pobre estudante cheio de espinhas. Repara: a cada vez que algum erro abominável vem ao conhecimento popular (tem um exemplo recente), brotam comentários maldosos do tipo "ih, um estagiário vai perder o emprego". É porque o estagiário é burro ou incompetente? Não, é porque quem pode mais, chora menos.
O mercado de trabalho é bastante competitivo, e mesmo que você chame todos os seus colegas de amigos (erro hipócrita básico), nunca vai querer admitir que é menos capaz que eles. Há quem diga que é bonito assumir a culpa, que é coisa de gente com caráter e tal, mas isso é bobagem: aceitar que você errou não te faz melhor, só faz com que os outros (os seus "amigos") parem de te acusar pelas costas. Nada contra, é até legal arrancar essa raspa de diversão maquiavélica alheia, mas certamente não vai te ajudar na carreira.
Para continuar ascendendo, a melhor opção ainda é fingir que não é com você e espantar a culpa pra qualquer lado o mais rápido possível. Ou vocês acham que o nome do Coelho Ricochete não tem nada a ver com o fato de ele ter chegado a xerife? Por favor.
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